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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

História de Mulher

Texto dedicado a nós (Lilica, Satika) por João Octávio
"Era uma vez uma garotinha. Nascida no início dos anos 80, foi criada por uma família normal, com pai e mãe normais. Não teve irmãos ou irmãs. Mas pode-se presumir que amigos na infância não faltaram.
Era uma garota como qualquer outra nascida nessa época: magra, esbelta, cabelos compridos e com uma franjinha. Na verdade, os cabelos compridos e o fato de sempre usar camisa (meninos costumam andar na rua só de short) eram os únicos indicativos de que ela era uma garota. Naqueles tempos, as crianças costumam deixar de ser crianças bem mais tarde, logo, até por volta dos quatorze anos a menina era o que hoje se costuma chamar de tábua: não possuía bunda nem seios salientes.
Era dona de uma beleza diferente, raramente compreendida. Possuía sardas em excesso, espinhas não mais que o normal e um pequeno problema de ortodontia. Não que tivesse dentes feios, ao contrário. Eles simplesmente não eram perfeitamente alinhados, o que, juntado a todos os outros fatores, fazia dela motivo de gozação e escárnio por seus colegas de sala.
Foi provavelmente ao chegar nos quinze que ela começou a desenvolver seu corpo. Seios começaram a ficar protuberantes, uma bundinha começou a preencher os espaços antes vagos de suas calças. Infelizmente, hormônios são coisas bizarras. Não se sabe o que deu errada (progesterona de menos, testosterona acima do normal pros padrões femininos?), mas junto dessas qualidades surgiu um pequeno defeito: um bigode. Não aquela pelagem fina, que se costuma encontrar acima dos lábios de algumas mulheres e, que diga-se de passagem, às vezes é até charmoso, mas uma camada espessa de pêlos. Era um bigode que faria inveja a alguns meninos de sua idade.
Imagina-se o quão difícil foi este período: garotas troçavam e garotos desprezavam. Os únicos que se aproximavam dela a viam como nada mais do que um objeto sexual fácil, embora assim não o fosse. Afinal, eis a lógica usada: “se ela é feia, ninguém quer. Se ninguém quer, ela aceita qualquer um. Se aceita qualquer um, faz qualquer coisa pra mantê-lo. Logo, sexo deve ser fácil, fácil”. Infere-se facilmente, infelizmente, que esse tipo de atitude devia deixar a menina em questão deveras triste, depressiva e reprimida.
Um dia, ela conquistou uma amiga. Na verdade, encontrou ou esbarrou seria mais correto, já que nada foi feito para conquistar. Não se sabe muito bem como isso se deu: se encontraram-se por acaso numa festa, na casa de um amigo, numa caminhada pelo parque, numa sala de aula. Afinal, isso faz muito tempo e ninguém costuma lembrar como conheceu um amigo. Sabe-se que essa amiga era o oposto dela: um pouco mais jovem, mas bem mais bonita (cabelos castanhos ondulados, olhos castanho-claros, seios fartos, cintura definida e um sorriso capaz de fazer qualquer macho babar) e sexualmente bem decidida. Apesar das diferenças, realmente se tornaram amigas. Nessa época, influenciada pela nova companheira, ela resolveu dar um trato no visual.
Em poucos meses, nossa garotinha se tornou uma mulher. Passou a depilar seu bigode (que nunca mais foi visto), a usar blusas decotadas e saias e calças que ressaltassem suas belas pernas. Tornou-se atraente. Passou a ser assediada pelos colegas de sala (agora, na faculdade, não no colégio). Teve experiências sexuais e amorosas, às vezes uma ou outra, às vezes ambas de uma vez.
Um dia ela se apaixonou de verdade e foi correspondida, vejam só. Dizem que o cara era desses exemplares hoje raros de se ver: gostava de andar a pé com ela, abraçado. Quando saiam, ele sempre lhe puxava a cadeira. Costuma sentar sempre próximo e, vez por outra, do nada, dar um beijo e abraço demorado. Daqueles que hoje em dia só se vê em público quando o casal é jovem e o relacionamento é recente.
O relacionamento foi intenso. O rapaz, jovem sonhador, aspirante a escritor que ainda morava com os pais, embora possuísse bom emprego, foi logo aceito pela família da moça. A moça foi aprovada pela mãe do rapaz. Em poucos meses, eles praticamente já moravam juntos: era comum ela dormir na casa dele, usar as roupas deles, abraçar de manhã a mãe dele (ainda usando só um camisão dele) como se fosse a sua.
Um dia, sem preparação nenhuma, sem aviso nenhum, ele chegou pra ela e exibiu a mão direita: “olha só, amor: O que você acha dessa coisa que achei nas gavetas de minha mãe?” A “coisa “ tratava-se de um fino anel de ouro no centro de sua mão. “Bonita, muito bonita. Linda, na verdade. Por que foi que sua mãe trocou essa aliança pela que ela hoje usa?” “sei lá – ele respondeu – Mas se você achou tão bonita assim, por que não usa? Acho que cabe direitinho no teu dedo. E, olha só!, tem outra aqui que cabe direitinho no meu”. E assim, com um diálogo desses, ele a pediu em casamento. Alguns segundos demoraram pra ficha cair, pra menina se tocar do que estava acontecendo. Quando ela se deu conta, começou a chorar (coisa típica de mulher, nunca vou entender) e o abraçou com força. O sexo que fizeram naquela noite até hoje é lembrado por ela com um carinho enorme.
Mas a vida nunca sai como esperamos. Como diria Tom Hanks em Forrest Gump: “A vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar dentro”. Tudo estava perfeito, tudo estava lindo demais pra ser verdade. Parecia até um sonho. Um sonho do qual nossa garotinha (agora uma mulher, vale lembrar) foi bruscamente acordada: numa madrugada idiota qualquer, um idiota qualquer causou um acidente estúpido demais com seu noivo. O socorro chegou tarde demais e ele faleceu.
Nossa mulher voltou a ser uma garotinha: triste, pesarosa, chorona. Sem sair do quarto por meses. Perdeu peso, quase voltou a ser uma tábua de tão magra que ficou. Parecia que ia morrer de tristeza. Mas nessas horas, ter amigos é bom: aquela velha amiga, aquela que a ajudara a crescer, a se transformar em mulher, a ajudou a sair da fossa. A arrastou novamente pro mundo dos vivos.
Se ela um dia conseguiu superar a morte de seu amado? Impossível responder. Dois anos se passaram, ela já amou outros. Mas mesmo assim, em algumas noites frias, sozinha em seu apartamento, ela chora até de tarde lembrando o quão bom era dormir de conchinha com ele…"

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

As voltas que o mundo dá

Ela era magrela, as pernas dois cambitos. O cabelo era armado estilo Maria Bethânia e os cremes para pentear ainda não existiam na época. As sobrancelhas se assemelhavam a duas taturanas. Acima dos lábios, pêlos, que por puro eufemismo chamam de buço, mas que na verdade não é nada diferente de um bigode ralo. No rosto espinhas mil e sempre uma carranca. Nos dentes aparelhos ortodônticos fixos e no coração um vazio existencial.
Eram os tempos do colégio, da adolescência, da explosão hormonal e do despertar da sensualidade/sexualidade. Nesta fase da vida, todo mundo é meio feinho, mas dá-se um jeito aqui e outro ali e de feinha a pessoa passa a bonitinha. Só ela que continuava horrorosa e é claro que a carranca não ajudava. Ela não esboçava nenhum ar de simpatia e isso dificultava mais um pouco as coisas. Virou motivo de escárnio no colégio. Sempre que ela passava na hora do recreio um moleque, que de lindo não tinha nada, gritava: "Bigodudaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!" e todo mundo sabia pra quem a gozação era dirigida. Se fosse hoje, ela gritaria um: "Gorducho espinhudo" e logo acabaria com a alegria dele, mas na época ela era passiva demais, ficava triste com as chacotas e não se defendia. Nas aulas de educação física, a chacota era ainda maior. Como nunca soube jogar nada acabava sempre sendo a última a ser escolhida para o time, era a que sobrava.
Tinha uma coleguinha aqui e outra acolá, mas nada de amizades profundas. Chegou a comentar com uma delas sobre o vazio existencial. Pfff, a amiga era evangélica e a aconselhou a preencher esse vazio com Jesus. Mal sabia ela que esse vazio não acabaria nunca e sua amiga tinha menos conhecimento de causa ainda.
O vazio de vez em quando desaparece, cabe a ela encontrar formas de amenizá-lo, mas 100% não existe. Há quem se entorpeça pra se livrar do vazio. Cada um dá o jeito que pode, mas ela garante que Jesus não tampa vazio nenhum!
E assim era a vida dela naquela época. Ela tentava de todas as formas possíveis deixar o cabelo menos armado e o buço, aprendeu a tirar. O dia em que depilou o buço pela primeira vez chegou toda sorridente no colégio achando que seria bem vista, mas para a sua surpresa um magrelão alto lhe disse: "Até quem enfim você tirou o bigode, hein?" Deveria tê-lo chamado de tripa seca, mas como já disse ela era passiva!
Foi feia, isolada, deprimida e carrancuda até a formatura do 3º colegial. Já havia pedido pros pais para se mudar de colégio, mas esse era um colégio bom e era lá que ela deveria estudar e ponto final.
Depois da formatura foi como se tivesse ganhado uma carta de alforria. Sentia-se livre, virou a cinderela. Começou a alisar o cabelo, continuava depilando o buço e arrumando a sobrancelha e fazia tratamento para espinhas. Comparecia às festas do colégio só pra mostrar pra todo mundo que ela não era mais aquele patinho feio e sua presença, por incrível que pareça, levantava rumores e bochichos. Quem diria, hein?
Hoje, 12 anos depois, ela já não é mais magrela, tem um belo par de peitos e famosas ancas largas que lhe dão trabalho na hora de comprar calça. Seu cabelo parece liso natural e o mais importante de tudo, sabe impor respeito.
Ano passado foi à uma das festas do colégio depois de muito tempo sem aparecer e para sua surpresa viu homens e mulheres da mesma idade que ela, todos pelancudos, obesos. Alguns já com filhos e outros não, mas independente disso, a maioria estava mal cuidada com aquela pança saindo pela calça. Os homens estão até carecas! HAHAHAHAHAHAHAHA risadas sádicas! O escárnio agora parte dela! Lilica se sentiu vingada, pois não é mais a magrela de antes, mas também não está exageradamente pelancuda como eles e olhem que ela não fez nenhuma plástica ainda, hein? Se bobear elas aos 28 já fizeram inúmeras!
O vazio? Ah! O vazio continua lá, ainda que em menor proporção e freqüência, mas ela aprendeu a lidar com ele...

Já publiquei este texto num antigo blog que tive, mas resolvi postá-lo de novo com algumas alterações